Elas são as mães: rompem do inferno, furam a treva, arrastando os seus mantos na poeira das estrelas.
Animais sonâmbulos, dormem nos rios, na raiz do pão.
Na vulva sombria é onde fazem o lume: ali têm casa. Em segredo, escondem o latir lancinante dos seus cães.
Nos olhos, o relâmpago negro do frio.
Longamente bebem o silencio nas próprias mãos.
O olhar desafia as aves: o seu voo é mais fundo.
Sobre si se debruçam a escutar os passos do crepúsculo.
Despem-se ao espelho para entrarem nas águas da sombra.
É quando dançam que todos os caminhos levam ao mar.
São elas que fabricam o mel, o aroma do luar, o branco da rosa.
Quando o galo canta Desprendem-se para serem orvalho.
Eugénio de Andrade
2010-09-19 |