DESAPONTAMENTO
(Texto original; Português/Brasil)
Sempre fui avessa às tecnologias, bastava um papel e uma
caneta pra eu escrever
minhas poesias, nele cabia todas as tristezas e alegrias, bastava-me deixar a
alma cair em forma de rimas vazias...
Era um prazer, ler e reler, e no final sorrir, ou até
chorar pelas avarias que meu coração concebia. Foram longos anos, várias caixas
de papéis manuscritos, que um dia deixarei de herança a meus filhos, afinal meu
bem maior foi a poesia, o resto para mim era um meio de vida, comer, vestir,
sobreviver, sem muitas coisas eu vivia, nunca me fez falta um sapato novo, uma
nova panela, uma vassoura, ou uma pia, eu só não conseguia viver sem minhas
poesias, era meu único vício, era uma de minhas grandes alegrias, escrever.
Escrever para alguém ler e dizer: Gostei...
Escrever para alguém ler e criticar: Isso não é poesia é...
Eu escrevia quando lembrava de algo digno de se lembrar...
Eu escrevia quando precisava esquecer, algo que doía só de
imaginar...
Escrever para esconder, para revelar, para me manter em pé
diante de tantas situações que me foram pouco irmãs e por incrível que pareça
foram nessas fases tristes que escrevi as mais belas poesias, pode parecer
ironia do destino, ou é o velho caso: Deus escrevendo por linhas tortas, ou
seria eu que continuava entortando as linhas, errando rumos, fazendo versos
para o próprio consumo?
Sempre foi assim, sempre fui assim...
Até que comprei um computador e decidi me adequar às normas
dos seres ditos “Tecnologicamente antenados”, peguei
um monte de trabalhos para fazer, li dezenas de livros, resumi, quase morri,
não tenho mais tempo para compor, empobreci minha alma. Não tenho mais tempo
para nada, de manhã preciso levantar cedo e aproveitar a cabeça “fresca”e
trabalhar. Ligo a máquina que mais parece um “ET” com aqueles gemidos
estridentes saindo de seus componentes e na tela aparece a seta clic aqui, clic alí; o que é isso? O computador sempre me pergunta: O que é
isso? Erro sempre os comandos. Até meus cães estranharam, eles de vez em quando
se aproximam, arranham minha perna é como se dissessem: Hei, você já terminou pra brincar com a gente?
Passo uma mão na cabeça deles, mas a outra continua no
teclado, parece uma avaria, os prazos vencendo, o professor esperando a entrega
da monografia e eu dividida entre os cães, o computador e a poesia...
É bom ter uma máquina que sabe tudo. Será que ela sabe
tudo, às vezes me pergunto, essa tal tecnologia é uma avaria, a máquina finge
que sabe, mas no fundo é a gente quem dita as regras, se a gente não digita ela
não cria...
Ah, mas é um mundo artificial, a paisagem vem sem a brisa fresca
a nos acariciar a face, a gente vê tanta coisa e quer comprar; digite o nº de
seu cartão e pronto! É fácil, difícil é o rombo na conta bancária. A tecnologia
é um barato que nos sai caro.
Quero mais uma ilha, uma casa simples, quero viver assim,
sem a pretensão dos loucos que querem possuir o mundo, sem a inércia dos
covardes que tem medo de sonhar, nasci pra poesia,
esse é meu carma.
Descobri que não preciso muito para viver, o que quero da
vida, felizmente já posso ter. Nasci poeta, semi-analfabeta e isso me basta
para viver...
Maria José
Amaral
Brasil
27
Dezembro 2006