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A vida mais bem vivida
 

A vida mais bem vivida

 

Estranho caso ocorrido com Motavakel, o célebre Califa, que recebe de modesto pescador uma cesta vazia. O soberano descobre que o humilde pescador era um filósofo e encontra, entre os seus mais ilustres filósofos, um legítimo pescador

Todas as vezes que o Emir Motavakel-Billah dava audiência pública em seu luxuoso divan, acontecia algo de singular, isto é, ocorria um episódio qualquer surpreendente, digno de ser escrito e conservado nos anais do califado.
E isso, afirmavam os funcionários do palácio, sucedia sempre. Era certo, era fatal. Maktub! Quando o soberano, naquele ano, depois do último dia da Lua de Radamã, marcou a chamada Sessão da Plena Justiça, uma onda de curiosidade agitou os nobres e auxiliares da corte:
- O que iria acontecer? Que novo caso surgiria, de improviso, entre os nómadas, cheiques, mercadores e caravaneiros?

E ficaram todos na expectativa: Aguardemos o que está para acontecer - diziam. A vida é uma sucessão de surpresas preparadas pelo destino. Fugir ao destino é impossível. Maktub!
Ora, naquele dia, exactamente, tudo ocorreu com natural e decepcionante naturalidade. O Califa, seguindo a rotina enervante, ouviu as queixas (eram sempre as mesmas), atendeu aos solicitantes, socorreu várias pessoas que precisavam de auxílio urgente e determinou que fossem sanados certas irregularidades e abusos do serviço público.

Já ia, afinal, o soberano árabe encerrar a sua fecunda e benemérita audiência e proferir o clássico Inch'Allah (Assim quis Allah) quando o ilustre e prestigioso Welid ben Obeid, o vizir secretário, preveniu-o, respeitoso:
- Deveis, ainda, ó Rei!, ouvir o que deseja aquele desconhecido. Tenho a impressão de que se trata de um simples pescador que vive do outro lado do rio. E apontou um homem, de cara chupada, que se achava um pouco afastado, com uma cesta na mão, recostado a uma coluna. Trajava uma modesta abaya azulada.
- Sim, sim - assentiu com veemência o Califa, anediando a barba. - Vamos ouvi-lo. Ouahyat en-nébi! O que pretenderá ele, nesta sessão?

A um sinal do vizir, o solicitante aproximou-se do Rei, proferiu a saudação clássica (salam aleikoum!) e disse, a seguir, com fervoroso respeito:
- Chamo-me Kalil, ou melhor, Kalil Iamam. Sou pescador e venho da aldeia de Suan, onde vivo com minha esposa e três filhos. A minha vinda hoje a este divan, tem apenas um objetivo: moveu-me o desejo de oferecer pequeno e desvalioso presente ao nosso glorioso Emir! (Que Allah vos cubra de benefícios!).
E, depois de proferir tais palavras, o pescador colocou aos pés do Rei a cesta que trouxera com peixes. Mas (coisa curiosa!) a tal cesta não estava cheia. Longe disso. Tinha peixes só até à metade. Ora, sempre que um pescador de Bagdad ou de qualquer outro recanto do Islã, oferece uma cesta de peixes ao Rei, esta cesta deve estar repleta, a transbordar de pesados. Assim determina a valha praxe; assim reza a tradição; assim é que é correcto.

Sem se mostrar ofendido com a desatenção do ofertante, o Califa Motavakel-Billah, com simpatia, para a cesta meio vazia; olhou, a seguir, também, com muita simpatia, para o pescador que se achava de pé, em atitude respeitosa, braços cruzados. Os seus trajes eram modestos, mas não se sentia nem desmazelo, nem miséria; ostentava, em contraste com a abaya azulada, um turbante cinzento desbotado, tracejado de pequenos remendos; tinha o rosto escanhoado denegrido pelo Sol; os olhos escuros, cor de tâmara; testa larga; em idade deveria estar rondando a casa dos 47 ou 48 anos bem vividos.

Depois da ligeira pausa, o Rei tirou de pequena bolsa (das três que trazia presa ao cinto) e entregou-a ao pescador, dizendo com voz pausada e em tom paternal:
- Acabo de receber de ti, meu bom e atencioso amigo, uma cesta meio cheia; e em troca, para retribuir a essa gentileza, a essa expressiva fineza de tua parte, ofereço-te esta bolsa meio vazia!
O pescador, de relance, percebeu a intenção, o propósito astucioso do Rei; a bolsa continha moedas, mas essas moedas mal atingiam a metade da bolsa. E o valioso Califa, preocupado em parecer original (a corte estava reunida e assistia à audiência), repetiu com certa ironia, acentuando bem as palavras:
- Estás vendo, ó pescador Iamam!, recebi de ti esta bela cesta meio cheia; e, em troca, ofereço-te esta modesta bolsa meio vazia!
- Por Allah! - volveu o pescador, com um sorriso ladino, quase instantâneo. - Pelos sete méritos do Profeta! Há um engano, ó Emir!, de vossa parte. Eu, sim, que vos ofereci uma cesta meio vazia; e recebo de vossas mãos, em troca, esta valiosa bolsa meio cheia.
E acrescentou com ênfase, vibrando a um súbito calor de emoção:
- A verdade deve ser dita e reconhecida, ó Rei! Aquele que dá, dá sempre a cesta meio vazia; aquele que recebe, recebe, sempre a bolsa meio cheia. Que valem sete ou oito peixes? Uma lembrança... e nada mais. A dádiva, porém, de um rei generoso e justo não é um simples presente, é um elogio!

Aquelas palavras, proferidas com tanto desembaraço e clareza pelo pescador do turbante desbotado, surpreenderam o Califa dos árabes. Disse, então, Motavakel, dirigindo-se a seus vizires e secretários, num irreprimível espanto:
Ualahi na telabi! Estão vendo? Este bom e modesto pescador tem a alma de filósofo! É um verdadeiro filósofo! Sorriu o pescador e replicou com certa afoiteza:
- Perdão, ó Emir dos Crentes!, é muito natural que um pescador seja filósofo, pois sei de muitos filósofos que são pescadores.
Houve um momento de silêncio no largo divan do Rei. Vizires, cheiques e secretários, homens do estudo e do saber surpreendiam-se com as réplicas oportunas e judiciosas do modestíssimo pescador de Suan.
- Filósofos pescadores? - estranhou o Califa. - Ouallah!

E, voltando-se para o seu digno Vizir Welid bem Obeid, que era um sábio, um verdadeiro ulemá, interpelou-o com assombro, incrédulo:
- E tu, ó esclarecido Vizir!, que conheces os Livros da Sabedoria, os escritos dos alfaquis, os comentários do Profetas, tira-me desta dúvida: julgas que esse pescador proferiu a verdade? Há filósofos que são pescadores? Não será isso uma fantasia desatada?
Welid ben Obeid, o sábio (que Allah o tenha entre os eleitos), inclinou-se diante do Rei e assim falou (as suas palavras denunciavam certa emoção):
- A julgar por mim, ó Príncipe dos Crentes!, esse bom e honrado pescador disse a verdade. A pura verdade. Quando me sinto fatigado de ler e ouvir filósofos, de analisar, letra a letra os ensinamentos dos Inspirados, as sentenças dos doutores, os hadis do Profeta, tomo de minha rede, dos meus apetrechos de pesca, e vou, com meu filho mais moço, até o rio fazer um pouco de pescaria. Procuro repouso, para o meu conturbado espírito, tornando-me pescador. A pesca é, para mim, tranquilidade e paz. Esqueço, por momentos, os problemas torturantes da alma, as inquietações da dúvida, e ponho-me a pescar. É uma delícia pescar. A vida passa e o pescador, absorto em sua faina, não sente o passar tristonho da vida! Em cada minuto de espera vive, o incansável e paciente pescador, um ano de intensas emoções. A vida mais vivida, ó Rei do Tempo!, não é a vida do filósofo, é a vida do pescador.

O eloquente Welid ben Obeid, mestre entre os mestres, aclarou, com solene exaltação:
- Posso, pois, assegurar-vos, ó Emir!, que esse pescador disse a mais pura verdade. Há, realmente, pelos quatro cantos do mundo, filósofos que são pescadores.
Volveu, então, o Califa:
- As tuas palavras, meu caro Vizir, são como brincos preciosos de ouro puro para os meus ouvidos. Admito agora, que esse pescador tenha dito a verdade. Aceito que um filósofo possa ser pescador. Sim, aceito e acredito. O que me parece estranho e inaceitável é que um pescador seja filósofo!
- Peço humildemente perdão, ó Emir! - acudiu por sua vez o pescador, com certa desenvoltura. - Mas nada há, nem pode haver, de estranho no fato de um pescador ser filósofo. Muitas e muitas vezes, quando me sinto cansado de pescar, o corpo dolorido pela faina, largo a minha pesada rede, as minhas linhas, a caixa com iscas, e vou até a Mesquita Otman ouvir as lições de ulemás que ensinam filosofia e debatem os graves problemas do Ser e do Não-Ser.
Procuro repousar para a fadiga do meu corpo, tornando-me filósofo. A filosofia é, para mim, tranquilidade e paz. Esqueço, por um momento, os problemas e tropeços de minha vida de pobre, e ponho-me a filosofar. É uma delícia filosofar! A vida passa e o filósofo, enlevado em suas abstracções, não sente o passar inexorável da vida. Sinto aqui discordar do sábio analista Welid ben Obeid! A vida mais bem vivida, mais sentida, é a meu ver, não a vida serena do pescador, mas a vida intensa do filósofo!
- Iallah! - exclamou o Califa, esfregando as mãos, num petulante ar de inteligência. - Pela sombra da Caaba! É realmente curioso o que acabo de ouvir. O filósofo Welid ben Obeid, o sábio, descansa de seus estudos, pescando; o diligente pescador Kalil descansa de sua faina de pescador, estudando os altos problemas filosóficos!

E o Rei dos Árabes, depois de ligeira pausa, rematou com a mais afectuosa simplicidade:
- Já ouvi contar que Jesus, filho de Maria, quando quis escolher os seus primeiros discípulos foi procurá-los, não entre os filósofos, mas sim entre os pescadores. Que Allah, o glorificado, proteja os pescadores e esclareça os filósofos!

Vizires e escribas da corte comentavam:
- Já era de esperar! No final da audiência real, eis que ocorre o imprevisível: Um pescador humilde e pobre vira filósofo; um filósofo, rico, prestigioso, sábio de renome, grão-vizir do Rei, vira pescador. Maktub! (estava escrito!)
Mas, afinal, a semente da dúvida estava lançada entre os sábios e doutores bagdalis:
- Quem tem a vida mais bem vivida? O pobre Iaman, o pescador, ou o rico Welid ben Obeid, o filósofo?
Dizia o doutor Sibawaihi, o analista: - A vida mais bem vivida terá aquele que viver na Paz, no dever e no amor, isto é, aquele que viver na Verdade de Deus! Uassalam

 

Retirado do site; http://www.soldosahara.com.br/ 

 

(O texto foi integralmente respeitado)

25 de Janeiro 2006

2006-01-25

     


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